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Fast-fashion, até quando?

As grandes cadeias de loja, conhecidas também como magazines, são gigantes comerciais de capital aberto que possuem de cinquenta a quinhentos pontos de venda. Exemplos: Topshop, Gap, Forever 21, Zara, Hering, Marisa…

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Até a década de 80, o sistema funcionava de acordo com o ciclo de copiar, reproduzir e revender aquilo que havia sido definido como moda. Simultaneamente, os consumidores se condicionaram a comprar apenas na época de liquidação. Desta forma, as marcas perceberam que era importante lançar novidades frequentemente com preços mais acessíveis. Este foi o cenário para o início do conceito do fast-fashion. O modelo da “moda-rápida” não é somente disponibilizar produtos a cada semana ou quinzenalmente nos pontos de venda com preços acessíveis. O sucesso desta rede de lojas é a pesquisa de tendências forte, feita através de coolhunters, caçadores de tendências, que são agências ou pessoas especializadas em pesquisas de consumo. Estes profissionais viajam o mundo em busca de pistas do que as pessoas vão querer consumir no futuro. Os magazines também ouvem os desejos dos consumidores, com o intuito de fabricar produtos rapidamente, valorizando o design, a originalidade e que atendam às suas necessidades.

Recentemente o formato do fast-fashion começou a ser questionado pela pesquisadora e trendhunter holandesa Li Edelkoort, que já foi apontada pela revista Time como uma das pessoas mais influentes do mundo da moda. Li lançou o “Manifesto Anti-Fashion” e apresentou que o formato do mercado de moda hoje é obsoleto. Um dos pontos importantes da matéria é a questão do modelo de negócios. Para reduzir os custos, estas empresas buscam mão de obra barata em países como China e Peru. Por outro lado, os estilistas das marcas de luxo são pressionados a lançar não apenas duas, mas três coleções anuais (desde que se instituiu o Pre-Fall). Os designers não tem espaço para amadurecer uma ideia transgressora que rompe com o padrão vigente. Um exemplo clássico são as ombreiras, difundidas na década de 80, que influenciaram a maneira como a mulher se portava nesta década. Anteriormente, entre 1939 e 1945, as mulheres ocuparam o papel de “homens da casa”, pois seus maridos estavam na zona de combate. Este período favoreceu a emancipação da mulher, assim os grandes vestidos de baile não eram adequados ao novo estilo de vida. Com o fim da guerra, Dior propõem o New Look, em 1947, que representava o resgate da feminilidade perdida no período anterior. O século XX foi marcado por mudanças bruscas no modo de se vestir, ao contrário do que acontece hoje. Novas silhuetas não são propostas, as marcas lançam apenas roupas inspiradas nas décadas passadas. Onde foi parar o frisson dos desfiles do século XX! Yves Saint Laurent rompia padrões de estética e comportamento!

A roupa tornou-se descartável! Compre use e jogue fora! Esta é a mensagem que se passa. O consumidor não tem tempo de apreciar a roupa e consequentemente conclui que a moda e o setor têxtil não têm o seu valor.

A democratização da moda foi um avanço fantástico no final do século XX e início do século XIX com a construção deste formato de empresa que proporciona informação de moda atualizada e preços controlados. Porém, analisando grosseiramente estas marcas pode-se concluir que o formato foi levado às últimas consequências com o intuito de lucrar cada vez mais. Na sua grande maioria são voltadas para o público jovem. A moda deve ser acessível a diferentes públicos-alvo e adaptada aos diversos estilos de vida dos consumidores. Elas comercializam uma pequena quantidade de produtos básicos e atemporais, porem todos os esforços são para os roupas baseadas em tendência de moda ou no estilo de uma personalidade com um corpo escultural (Kim Kardashian para C&A) Nesta atual conjuntura, onde ficam os consumidores clássicos? Será que há um espaço considerável nestas coleções para uma alfaiataria correta? A modelagem é sofrível assim como o tecido. Não se pode esquecer as tentativas da Marisa de lançar produtos plus-size. A quantidade de produtos era irrisória. Pode-se chamar isso de moda democrática?

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Por Danilo Centemero, estilista, empresário, VM e vitrinista, professor de Visual Merchandising e Vitrine no Núcleo de Criação da Sigbol Fashion.

 

Voltando às origens – Moda e Arte na contramão do fast fashion

A evolução pela qual passou a moda em toda a sua história, e o “boom” capitalista que se tornou, se deve à revolução industrial e a produção em massa. Antes disso, os processos eram artesanais, envolvendo arte, sonhos, mãos habilidosas, pensamentos vagando entre agulhas e toda a sensibilidade que isso provoca – Não que hoje isso não exista mais, mas os processos industriais dominam e muitas vezes, bloqueiam um pouco o criativo, em uma corrida por produção, vendas exorbitantes e lucro imediato.

Enquanto isso na contramão, sobrevivem artesãos, costureiras, alfaiates, bordadeiras, crocheteiras entre outros profissionais que, mantendo tradições, sem pressa nem atropelos, mantém viva a arte da encomenda, do sob medida, da produção artesanal.

E não pensem que os sobreviventes são as vovós e titias! Despontou agora um movimento de “Slow Fashion” em que a produção artesanal tem superado a ansiedade por vendas e driblado a estrutura escravocrata, e dois nomes despontaram nessa trilha: Gabriel Pessagno, com seus bordados e Gustavo Silvestre, com seus crochês.

Gabriel Pessagno cursou moda  e após passar pelas estruturas rígidas da indústria, montou uma marca (River) e, insatisfeito, optou por pesquisar o trabalho feito nas maisons e deciciu que queria trabalhar cada peça de roupa artesanalmente.  

Gabriel já fez bordados para a marca Tilda, para ateliês de moulage e está iniciando sua produção. Assim, o garoto que fez roupas bordadas com parafusos, porcas, entulhos e pedaços de ferro velho para o TCC de seu curso de moda, está só no começo de uma carreira que promete deslanchar com muita sensibilidade e sucesso.

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            Gustavo Silvestre é natural do Recife, fez diversos cursos na área, ganhou prêmio de moda em Brasília e participou da Casa dos Criadores. “Até que fui pra China, havia uns investidores interessados no meu trabalho, a ideia era baratear a produção, que sempre teve essa coisa do manual, da estampa à mão. Voltei decepcionadíssimo. Ver aquela quantidade de roupas sendo feita, eles me perguntando ‘quantos contêineres você vai querer’, a estrutura deu um nó na minha cabeça”, conta o estilista. E após parar, repensar e respirar, acabou descobrindo uma nova trilha, e com a Stylist Chiara Gadaleta, do projeto Mãos do Brasil, mapeou comunidades de artesãos e com isso, acabou pegando gosto pelo crochê e resolveu aprender a técnica. Gustavo se diz muito mais realizado agora, atendendo com hora marcada e divuldando sua obra pelas redes sociais, “Eu não tenho escravo, está bem mais prazeroso. Ganhei uma cadeira de balanço, sento lá e se deixar, passo o dia me balançando e fazendo crochê”, conta. O estilista que já vestiu Karina Bu, Céu e Vanessa da Mata, agora prepara uma coleção de jóias de crochê para a estilista Adriana Barra.

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Por Camilla Capucci – Professora do núcleo de moda da Sigbol Fashion

Referências: 1, 2 e 3.